Como nos Tempos Modernos tem-se a ilusão da possibilidade de purificação generalizada, incluindo a purificação dos saberes, faz sentido a noção de “disciplinas científicas” e portanto as “interdisciplinaridades” e as “multidisciplinaridades”. Mas os saberes não são puros nem purificáveis, não existem objetos particulares, tudo se cruza e se atravessa e se “agencia” (produz efeitos entre si). Todos os saberes se cruzam, se atravessam e se agenciam.
Nesse sentido, não faz sentido a referência a “disciplinas”, como o espaço circunscrito de um saber puro acerca de um objeto particular e absoluto, tampouco a obediência a limites artificiais que se luta por manter e que requererm enérgicos mecanismos burocráticos de constante reiteração, sob pena de desfazerem-se. Há que se reconhecer sua virtualidade e transgredi-los, os limites, desfazê-los. Esquecê-los. Isso é que é transdisciplinaridade.
Esses limites são invenções constrangedoras e atravancadoras. Em algum momento tiveram sentido, mas esse sentido não é absoluto, porque nenhum sentido é absoluto: o pensamento dá voltas e se reinventa. A Modernidade, crente nas essências, acreditou ter “encontrado” o estado puro de certos saberes sobre certos objetos, apostando numa certa forma de conhecimento, e a disciplinarização aconteceu como a tentativa da consolidação, institucionalização, cristalização desses saberes específicos. Cristalização desses limites em torno dos saberes.
O pensamento, porém, é mais forte: é plástico. É sem forma — pois o tempo inteiro trans–forma-se. Tudo aquilo que é rígido se quebra sob pressão. Já as coisas moldáveis, transformam-se, evoluem. Evoluir significa transformar-se a partir de si mesmo. O que não é capaz de transformar-se a partir de si mesmo, ora morre. Ora, a delimitação dos saberes é justo a tentativa de acondicionar toda a vivacidade do pensamento em terrenos específicos de limites rígidos, de paralisar seu movimento espontâneo.
De posse dessa compreensão dinâmica acerca do pensamento não há como imaginar que esse constrangimento se possa sustentar por muito tempo. O pensamento já se transforma, já se estica, já cutuca. Mas os limites insistem, rígidos, também, pudera…: São reiterantes de um poder no especialismo. Há poder em jogo. O maior poder. O maior mecanismo de poder, na Modernidade, o mais central, está aí, no conhecimento científico especializado.
Só porque aquilo que é rígido fatalmente um dia se quebra, não quer dizer que se quebre fácil. Mas não tem jeito: um dia se quebra! É uma constatação dinâmica.
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O fato de a disciplinarização dos saberes reiterar um poder no especialismo não é de pouco significado. Se a Idade Média foi o tempo da determinação divina (desse Deus torto do catolicismo), a Idade Moderna é o tempo da determinação do saber científico. Se o que operava e justificava a manutenção do status quo lá no tempo dos feudos era a inconstestável vontade divina, o que opera e justifica hoje é a incontestável autoridade dos diplomas universitários; não se é mais conde nem barão para se ditar regra, se é MD, PhD.
Engraçado é notar as medidas desesperadas de reserva de mercado e tentativa de manutenção de um status que se começa a desconfiar ameaçado. O ato médito (e a recente campanha pelo “valor do médico”) por exemplo são uns nobres (modernos) emputecidos com aquela burguesada comprando títulos de nobreza. No caso, que qualquer um se possa tornar nobre ou que a condição de nobreza perca sua posição de privilégio, dá na mesma. O que se passa é: não engolimos mais o motivo de sua hegemonia. Os tempos são outros. Suas medidas de contenção burocráticas vão funcionar por pouco tempo; é assim que se passa a história.
Isso me traz ao início da idéia. Não, Marx, a luta de classes não é o motor da história, a história não tem motor, porque não precisa. Ela é um ser vivo, anda com as próprias patas e o que a movimenta não são tão somente suas pernas como músculos e ossos, mas suas pernas como seus músculos, ossos e seus devires. Há uma estrutura social e econômica que corresponde à sociedade da Ciência. Uma não causa a outra e ambas se causam. Se há determinação, ela é circular, jamais unidirecional.
O século XXI tá na crista de uma onda.